quarta-feira, 25 de julho de 2007

9 anos

«Quero fazer o elogio do amor puro.
Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em 'diálogo'.
O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível.
O amor tornou-se uma questão prática.
O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam 'praticamente' apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do 'tá tudo bem, tudo bem', tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso 'dá lá um jeitinho sentimental'.
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores.
O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor. A 'vidinha' é uma convivência assassina.
O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino.
O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.
O amor não se percebe. Não dá para perceber.
O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra.
A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida.
A vida que se lixe.
Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra.»

ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso

Já passaram nove anos, às vezes a vida invade-nos o Amor, mas apesar de tudo ele resiste, cresce e floresce. Obrigada por seres o meu companheiro.

16 comentários:

  1. A Tia Emprestada25/7/07 11:47 da manhã

    Gostei muito e concordo com o texto embora não seja grande apreciadora do autor, mas assino por baixo...
    Uma coisa que não tem nada a ver é que já gastei dinheiro num lindo fio, para usar num lindo vestido, para um lindo baptizado...
    E depois se achar que merece, ponha uma foto de uns certos embrulhos, aqui no Blog, se vier a haver encomendas levas uma comissão... TÂO TÃO LINDOS

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  2. Confesso que me vieram as lágrimas as olhos. Talvez por a foto me recordar outros tempos. Talvez por me lembrar de vocês. E de nós. Talvez porque gosto muito dos dois. Talvez porque estou aqui para contar muitos anos.

    E se a vida não invadisse o amor de vez em quando também era uma grande chatice...

    O importante é ter essa consciência. De que a vida invade. Mas, se é Amor resiste.

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  3. Parabéns!

    (tenho de ir espreitar esse album... fiquei com água na boca! lol)

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  4. eeeelá amei o texto. que não é novidade pq gosto de quase tudo o q ele escreve!

    parabéns!!! que 9 já começa a ser alguma coisa! ;)))

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  5. Hum. Não gostei do texto. Não gosto do Miguel Esteves Cardoso. Percebo a ideia transmitida, é muito bonito e tal, mas a verdade é que realmente a vida é uma coisa e o amor é outra, e não é possível dizer à vida que se lixe, porque senão... morremos, não é? E morrer de amor pode ser muito lindo para aparecer nos romances do Camilo, mas morre-se à mesma e nessa altura, o amor lixa-se sempre.

    Já tive um amor destes. Se tivesse continuado a dizer à vida para se lixar, porque aquele amor é que era, era uma pessoa muito mais triste, mais infeliz, com muito pouco, quase nada para dar à vida, e de resto, ao próprio amor.

    Ainda bem que consegues ter um amor tão profundo como o que o texto descreve, e ele é de maneira que te permite viver. Mas não duvides: no dia em que esse equilíbrio se acabar, e espero que nunca aconteça, não vai ser o amor que vai falar mais alto; vai ser a tua própria vida. Porque tem que ser. Para poderes amar outra vez.

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  6. Parabéns pelos 9 anos!
    Q muitos mais se sigam...

    Beijocas

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  7. Adorei!!!
    Muitas felicidades, Parabens!!
    Beijos

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  8. A vida a dois não é nada fácil. Mas um dia de cada vez, com amor, e passam-se nove anos (e depois mais nove e mais nove...)! Parabéns!

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  9. que lindo texto... adorei!

    (também vou para os 9, no mês que vem!!!!)

    PARABÉNS!

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  10. Muitos Parabéns!!! Que venham muitos mais anos, cheios de alegria, amor e felicidade!

    Um beijinho nosso

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  11. PARABÉNS pelos 9 anos, e que festejem assim muitos muitos mais.
    Adorei ler o texto...liiindo..

    bjnhos

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  12. Em relacao ao texto, gostei muito...

    Muitos parabéns :)

    Beijinhos :)

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